sábado, 10 de janeiro de 2009

Se quiseres conhecer alguém, dê poder a essa pessoa.

Em um tempo distante numa cidade mais distante ainda vivia eu, meus pais e duas irmãs. A miséria nos assolava a cada verão e persistia no outono, inverno e primavera. A meu ver ser miserável é muito pior do que ser pobre.

A cada nova estação via meu pai recitar o mesmo discurso inflamado de que sairíamos em breve daquela situação. Nunca desacreditei de seu otimismo e esforço incansável. Mesmo nos momentos mais difíceis seu sorriso de rugas marcadas era encorajador.

A última lembrança que guardo dele foi num inverno que ocorreu um eclipse da lua. Ficamos muito tempo sentados na varanda a observar a transformação. Notei em minha infância confusa seu rosto cansado com a barba por fazer e olhar tristonho como se pedisse misericórdia e desculpas pelos anos de promessas e fome a família, por ter falhado em sua justa missão. E com essa tristeza anuncio naquela estação sua doença já em estágio terminal.

Foi neste mesmo dia, que minha mãe pela primeira vez se manifestou diante meu pai e não a sua sombra. Minhas irmãs eram muito pequenas para entender a situação, mas minha percepção previu que dali em diante seria diferente. Nessa mesma estação meu pai se foi e minha mãe tomou as rédeas da família. Estranhamente sua amargura havia desaparecido. Como eu não tinha a percebido antes? Era tão jovem, bonita e por tanto tempo só era uma sombra das promessas de meu pai. Eu realmente não entendia.

A mudança que ela sofreu a deixou obcecada por sair da situação ao qual nos encontrávamos. Por varias vezes sumia por dias, me deixando com todos os afazeres da casa. Ficava por horas sentado na soleira da porta esperando seu retorno, mas sem coragem de perguntar onde andava. Não demorou muito para sairmos do estado de miséria para o estado de pobreza, e disso entendo bem.

Todas as vezes que minha mãe voltava para casa estava mais bonita, bem vestida e sempre trazia presentes e comida o suficiente para cada estação que transformava a outra. Eu sempre tinha meus questionamentos, mas me perdia em seu olhar feliz e preocupado, assim como seu sorriso manipulador. Confesso, minha mãe me seduzia para não ser questionada. E não demorou muito para a vizinhança começar a espalhar boatos sobre seus sumiços sem deixar endereço e rápido crescimento financeiro. Em muitas brigas acabei me metendo por causa dela e cada vez mais me sentia isolado em minha adolescência e ascensão social.

Minha submissão irritava-me quando ela estava longe, mas quando vinha nos ver minha alegria falava mais alto que a coerência. Estava na hora de uma posição da minha parte. Então senti que tinha poder o suficiente para questiona-la em sua próxima vinda. Sentia-me o chefe da casa na sua ausência constante. Era hora da verdade aparecer diante meus olhos e fora da minha imaginação. No fundo de minha alma não queria acreditar nos comentários que surgiam com prepotência, mas era quase irremediável.

Foi em um fim de tarde do tórrido verão, depois que me formei no que chamam hoje de ensino médio, a última visita de minha mãe. A última em vários sentidos, pois havia me enchido de coragem e designação para acabar de vez com aquela loucura em que me encontrava junto a minhas irmãs. Se ela não voltasse para casa, estava decido de que quem iria embora era eu.

Era quase noite quando os cachorros latiram anunciando sua chegada. Desta vez não me permitiria olhar em seus olhos manipuladores, contestaria até o final. Seu perfume se atreveu entrar na casa antes mesmo de seu corpo, mas ainda sentia-me firme em meu propósito. Porém, desta vez ela chegou diferente, trazia malas e meu coração parecia saltar pela boca descontrolado. Fui ao seu encontro com sorriso largo retribuído e joguei-me em um abraço sem fim, perdido em lágrimas despercebidas. O silêncio entre nós falava mais do que qualquer palavra ou verso recitado.

As malas estavam vazias, mas entendi que desta vez era nossa despedida daquilo que um dia pensamos ser o nosso lar. O poder que foi dado a mim e a minha mãe eram distintos, mas não mudou nossa essência e de certa forma um era submisso ao outro. Só neste dia compreendi que a vida dentro de uma boléia de caminhão não tem parada, nem dia e hora certa, muito menos em lugar algum. Ela trabalhava de sol a sol, com dignidade fazendo aquilo que sabia e que meu pai não permitia. Descobri assim que submissa a mim era ela, assim como foi com meu pai. Dependia de mim para manter a ordem e cuidar da família enquanto ela fazia o que mais amava, voava para sua suposta liberdade...

Um comentário:

José Ricardo Vieira disse...

Que a dureza da realidade seja sempre domada pela leveza da rosa que é tua arte... Delícia de ler, angustiante, forte, dual. Parabéns, mocinha.

Passa lá em casa pra um café qualquer dia... Escrevo um poema na tua pele...